Talvez seja uma oscilação de mundo.
Quando eu tinha uma década, eu vivia um rito de passagem muito importante – a decisão de continuar na minha escola (que estudava desde que me entendia como pessoinha) ou decidir me mudar para outra para iniciar o fundamental. Desde mais nova eu sabia que era uma grande vontade da minha avó me ver estudando na melhor escola daquela cidadezinha do interior, e por mais que eu amasse a minha escola de sempre, amasse os meus amigos e colegas de sempre, amasse o meu dia-a-dia de sempre, amasse os funcionários da escola que sabiam meu nome, do meu irmão, da minha mãe, pai, tio, avó e papagaio, a singela ambição da minha avó com os meus estudos desde criança abria uma possibilidade que nunca tinha nem imaginado na época: poder viver outras coisas.
Depois do falecimento dela, meu mundo mudou de tonalidade, e quis buscar cores novas para colorir os meus dias, decidi fazer a prova para tentar mudar de escola. Por esquecimento ou desapego de rivalidades que não me eram importantes, me surpreendi com a reação dos meus amigos e colegas de sempre, que se sentiram traídos pela minha decisão de mudar, para a escola inimiga, e pararam de falar comigo nos meses finais do ano letivo. Tudo o que me confortava e era motivo para minha grande indecisão de mudança não estava mais ali, a minha escola de sempre já não me era familiar com tanta animosidade, tudo o que me importava ali agora me repelia, naquele momento eu tive certeza da minha decisão. E fico olhando para trás, com um questionamento: será que a sensação de verdade depende, em parte, do humor? Pois nunca existe percepção absolutamente neutra.
Heidegger fala que nunca habitamos o “mesmo mundo”, habitamos o mundo como ele está aberto para nós em uma determinada tonalidade afetiva. Nesta lembrança acima, a mesma escola que estudei por 7 anos, não foi a mesma para mim no final deste ano específico, pois como eu me sentia em relação a ela, às pessoas dentro dela, tudo havia mudado.
E acho que faz um diálogo muito bonito com a psicopatologia, pois talvez a bipolaridade revele algo que normalmente esquecemos. Todos nós somos muito mais dependentes do humor do que imaginamos. A diferença é que na nossa vida cotidiana, as mudanças costumam ser graduais, enquanto que na bipolaridade, as mudanças podem ser tão intensas que não alteram apenas como a pessoa se sente, mas a própria estrutura do tempo vivido, do espaço vivido, do corpo e da relação com o mundo.
Se partirmos da teórica de que o humor não significa estar feliz ou triste, e sim como o mundo inteiro aparece para mim, a experiência bipolar não seria sobre algo “dentro” de mim, mas sim o clima que me toma no qual tudo ganha significado, o mundo inteiro muda de tonalidade. Quando acordo ansioso, essa experiência não pode ser minimizada apenas como sentimento de ansiedade, meu café com pão de queijo parece diferente, meus planos com minhas amigas parece diferente, meu companheiro parece diferente, meu corpo parece diferente.
Na mania o mundo inteiro ganha possibilidades, tudo parece ser alcançável, urgente, as ideias parecem ser brilhantes, há um excesso de abertura como se nada oferecesse resistência o suficiente para não ser feito. O “eu não posso” desaparece, e o mundo deixa de impor o seu peso, até o corpo parece mais leve, ele obedece sem tanto esforço. Na mania, o impossível muda a forma como aparece, tudo importa.
Na depressão o mundo encolhe, o mundo parece fechado de possibilidades, tudo parece distante, o levantar da cama carece de muito esforço, toda tarefa parece imediatamente penosa, o futuro é distante e o amanhã é antecipado como uma repetição do hoje, nada importa mais.
Os humores não apenas mudam sentimentos. Eles reorganizam o que importa.
Na prática, a questão da bipolaridade deixa de ser controlar o humor, e passa a ser como conseguir habitar um mundo cuja importância muda radicalmente; e como permanecer em conexão consigo mesmo sem ser completamente absorvido pela tonalidade afetiva do momento? Uma hipótese seria sustentar uma continuidade que não dependesse da tonalidade afetiva, criando consciência da maneira que responde às diferentes aberturas do mundo.
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